Uma liberdade que poucos conseguem realmente ter


Desde 1993 que o 3 de maio é o Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, uma iniciativa da UNESCO, de facto, muito bonita de se apregoar ao vento e que tem toda a lógica de existir e de se comemorar mas, na hora da verdade, da verdade mesmo verdade, será que ela existe mesmo? Ou é condicionada pelos interesses comerciais das entidades patronais, pela pressão dos governantes, desde o poder central ao local, pela má vontade dos leitores, por mil e um fatores que nos levam, a nós, jornalistas, a pensar duas vezes se vale a pena arranjar mais uma dor de cabeça por esta ou aquela notícia, entrevista ou reportagem?

Nem sequer estou a pensar em regimes ditatoriais onde a liberdade de imprensa pura e simplesmente não existe. Estou a pensar nos países democráticos, como é o nosso Portugal, onde os órgãos de comunicação social têm a sua sustentabilidade financeira cada vez mais dependente dos anunciantes. Onde os jornalistas cada vez sentem os seus postos de trabalho menos seguros, porque é mais fácil para os patrões usarem e abusarem dos estagiários, dos recém-licenciados que chegam através dos centros de emprego, com a maior fatia do ordenado paga pelo Estado. Não interessa muito a qualidade do serviço que prestam, que depende do talento, mas também dos anos de experiência que têm, porque há agências noticiosas e gabinetes de comunicação que enviam a papinha toda feita por e-mail, basta fazer copy-paste e está o assunto resolvido.

Ninguém tenha dúvidas de que a profissão de jornalista já não é o que era há umas décadas, porque, de repente, toda a gente quis tirar um curso de comunicação social para ir apresentar o telejornal ou tornar-se famoso a entrevistar os famosos. Depois, o boom da imprensa online colocou em sérias dificuldades a imprensa tradicional, de papel. Resumindo, há um excesso tremendo de oferta em relação à procura e isso fez com que as entidades patronais ficassem com o queijo e a faca na mão, portanto, “ou aceitas as minhas condições, ou vais para o olho da rua”.

Para piorar tudo isto, no mundo moderno, mesmo quem não é jornalista de formação, é jornalista de ocasião, bastando ter um telemóvel com câmara fotográfica e acesso à internet para publicar «notícias» nas redes sociais. Raios, até já há sítios da internet próprios para se publicarem notícias falsas e, pasme-se, até há quem as comente depois sem perceber que elas não têm uma ponta de verdade. É um mundo em que se goza a torto e a direito com a informação e isso retira importância e prestígio à profissão de jornalista.

E digo-vos uma coisa, meus amigos, é um tormento ser jornalista em ano de eleições autárquicas, ao contrário do que possam imaginar. De um lado são os presidentes no poder a quererem ser entrevistados para falarem do serviço feito ao longo destes quatro anos. Quando um órgão de comunicação social não está muito interessado em política, leva logo com a dica do “teremos que repensar o nosso apoio ao seu meio”. Os candidatos do outro lado da trincheira também querem ser entrevistados e nem se importam de pagar em troca de umas páginas no jornal ou revista. E se a resposta é a mesma, que não estamos vocacionados para a política, disparam logo com o “são uns vendidos, só entrevistam quem vos paga”, quando eles próprios queriam pagar para esse fim.

Publicar notícias do dia-a-dia é outro stress. Se escrevemos algo sobre este ou aquele evento organizado por uma autarquia, ou sobre esta ou aquela obra concluída, somos uns lacaios do sistema, estamos a fazer propaganda descarada a favor dos presidentes no poder. Se escrevemos algo sobre uma obra atrasada, funcionários que faltam, serviços que falham, estamos a ser pagos pela oposição para fragilizar a posição dos presidentes no poder. Enfim, em ano de eleições, tudo serve para atacar os jornalistas, ninguém é isento, independente, andamos todos na folha de pagamento de alguém, umas vezes de quem está no poder, noutras, de quem está na oposição.

No meio disto tudo, volto ao princípio da conversa. O Dia Internacional da Liberdade de Imprensa é digno de se comemorar, fica muito bonito no papel mas, no dia-a-dia, no mundo real, são muito poucos os jornalistas que realmente podem dizer que são totalmente livres no exercício da sua profissão.

Daniel Pina

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