Arde… replanta… arde… replanta… e as vidas vão-se perdendo


Os incêndios que afligiram Pedrógão Grande durante a passada semana e que culminaram na perda de 64 vidas humanas e em 45 mil hectares de área ardida vão certamente ficar na memória durante muitos anos. Uma tragédia onde mais uma vez se comprovou a bravura dos nossos bombeiros, assim como a solidariedade e generosidade dos portugueses quando há que ajudar o próximo nos momentos de maior aflição.

Tudo o resto ficou mal na fotografia, a começar nos políticos, que não se entendem sobre o que querem para o futuro do país, e a terminar na postura de alguns jornalistas e órgãos de comunicação social, apenas preocupados em aumentar os seus níveis de audiência e de popularidade, independentemente dos princípios morais e éticos que estejam a infringir e no sofrimento que estão a causar a terceiros. Da mesma forma, e tal como sucede no futebol, multiplicaram-se os treinadores de bancada, os especialistas de ocasião. Toda a gente apontou o dedo a toda a gente e todos avançaram com ideias e estratégias miraculosas para que não se continuem a repetir os erros do passado. Mas a verdade é que eles continuam a cometer-se e não há volta a dar ao assunto.

Recuando alguns meses no tempo, assisti, em São Brás de Alportel, no dia 2 de janeiro deste ano, ao Ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, Luís Capoulas Santos, falar da tão desejada «Reforma da Floresta», lamentando que Portugal tivesse perdido, nos últimos 15 anos, cerca de 150 mil hectares de área florestal. Agora, numa semana, ardeu quase um terço desse número. Na ocasião, o governante reconheceu que a floresta nacional padece de um enorme problema, designadamente a ausência de cadastro numa zona do país onde a propriedade está muito pulverizada e é insuscetível de ser profissionalmente gerida. “Isso conduz ao abandono, que leva aos incêndios, que gera uma falta de vontade dos privados investirem na floresta devido ao elevado risco. É um ciclo vicioso porque não se conhece o património e não há condições de se atribuir a sua gestão”, admitiu Capoulas Santos.

De regresso ao presente, parece que as ideias da tal «Reforma da Floresta» permanecem no papel, a julgar por um concurso lançado pelo governo de António Costa, no valor de nove milhões de euros em fundos comunitários, para rearborização de eucaliptos. O anúncio foi publicado no dia 9 de junho e dava prioridade, curiosamente, a concelhos como Pedrógão Grande e Góis. O concurso prevê a reflorestação com eucaliptos em áreas onde esta espécie já exista, mas que se encontrem em subprodução, com o intuito de obtenção de povoamentos mais produtivos.

A acompanhar o anúncio do concurso está um mapa onde está incluída praticamente toda a área dos distritos de Viana do Castelo, Braga, Porto, Aveiro, Coimbra e Leiria, bem como uma grande fatia dos distritos de Viseu, Castelo Branco, Santarém e Lisboa. E, entre os concelhos com aptidão produtiva elevada, estavam Pedrógão Grande e Góis, duas das áreas mais afetadas pelos incêndios da última semana. Portanto, ao mesmo tempo que se andou a «vender» pelo país inteiro uma «Reforma da Floresta» para recuperar e proteger uma das nossas maiores riquezas – onde se destaca precisamente uma proposta de lei para rever o Regime Jurídico das Ações de Arborização e de Rearborização que trava a expansão da área de plantação de eucalipto – continua-se a abrir caminho para a tragédia, porque existem fundos comunitários para tal e porque, acima de tudo, alguns dos maiores grupos privados nacionais ligados à agricultura e à floresta defendem o investimento na floresta, nomeadamente no eucalipto, de forma a reduzir as importações.

Resumindo: arde, replanta-se, arde, replanta-se, o ciclo segue igual ao de sempre e, pelo meio, vão morrendo mais pessoas…

Daniel Pina

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