Para o génio do duplo traço contínuo…

Esta noite fui a Castro Marim tirar fotos a uma gala de dança no Revelim de Santo António. Fui pela EN 125, não sou rico para andar sempre pela Via do Infante. Junto a Tavira, apanhei com uma senhora a conduzir tranquilamente em contramão, para evitar a fila de trânsito da sua faixa de rodagem. Mais à frente, um fulano entrou por uma rotunda adentro sem passar cartão a quem já lá estava a circular. Lá para os lados de Altura, salta um carro disparado de um cruzamento.

Chegado a Castro Marim, conclui que prefiro «esta» EN 125 com um piso de terceiro mundo e muitos «craques» do volante, do que a «outra» EN 125, aquela que agora ficou mais bonita, mas cuja pintura ficou estragada com um duplo traço contínuo e pinos centrais. A sério. Não consigo perceber o que vai na cabeça de alguém quando decide colocar um duplo traço contínuo em praticamente metade da principal via de comunicação do Algarve, por sinal a principal região turística do país, por sinal em plena época alta do turismo.

Se um dia fosse Primeiro-Ministro, a minha primeira decisão seria criar uma lei que proibisse a elaboração de projetos de infraestruturas ou ordenamento do território dentro de quatro paredes de um gabinete qualquer de Lisboa. Se eu mandasse, os projetos eram feitos em cima do capô dum carro, estacionado na berma de uma estrada, para esses senhores arquitetos e engenheiros perceberem o modo como os rabiscos que fazem numa folha de papel influenciam a vida dos comuns mortais.

Estou a imaginar o génio responsável por esta «maravilhosa» medida. “Aqueles «mouros» estão sempre a reclamar das ultrapassagens malucas dos lisboetas ou dos transfers, e dos estrangeiros que, de repente, fazem inversão de marcha para comprarem fruta, plantas ou porcelanas do outro lado da estrada. Tomem lá com um duplo traço contínuo para resolver o problema, e com pinos no meio da estrada para ninguém ficar com ideias engraçadas”. Depois, o dito génio foi para casa dormir e sonhou com uma EN 125 de uma realidade alternativa em que toda a gente conduz a 90 km/h e ninguém tem horários para cumprir.

Enquanto isso, no mundo real, nós apanhamos com camiões ou autocarros de passageiros a conduzir a 60 km/h. Ou com velhotes que não veem um palmo à frente do nariz e que vão para a EN 125 conduzir os seus carros de corda a 30 ou 40 km/h. Ou com turistas que querem apreciar as nossas belas paisagens e circulam a 60 km/h. Ou com ciclistas que, à falta de ciclovias, pedalam no meio da EN 125. E os outros, que remédio, seguem em procissão lenta, porque nem sequer podem pensar em cometer uma infração ao código da estrada para fazer uma ultrapassagem por causa dos malditos pinos.

Bem sei que a Secretaria de Estado do Turismo e o Turismo de Portugal andam muito empenhados em promover o «walking & cycling» como novo produto turístico. Mas eu tinha ficado com a impressão de que isso era apenas para os turistas, não imaginava que o governo pretendia meter todos os algarvios a andar de bicicleta no seu dia-a-dia, de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Contudo, hoje, mais depressa vamos a algum lado na EN 125 de bicicleta do que de carro. Ou então de patins em linha, para os mais radicais, que até se podem divertir a ziguezaguear por entre os pinos.

O tal génio do duplo traço contínuo também não deve ter conhecimentos dos vários acidentes que acontecem todos os dias na EN 125. Ou estará a pensar que, sempre que houver um desastre, os condutores todos que seguirem nessa faixa desligam os carros e vão jogar às cartas para a berma da estrada? É que, caso não tenha reparado, ninguém pode utilizar a outra faixa de rodagem para se desviar do acidente. Mais importante do que isso: como é que as viaturas das forças de segurança e dos meios de socorro, sejam ambulâncias ou carros de bombeiros, conseguem chegar ao local do acidente? Mesmo com as sirenes a berrar e as luzes a girar, também não podem fazer ultrapassagens, a não ser que vão derrubando os pinos todos pelo caminho. E como é que regressam depois com os feridos para os hospitais? Ou o Algarve vai receber uma frota nova de helicópteros do INEM e ainda ninguém nos disse?

Não consigo mesmo perceber como é que alguém, no seu perfeito juízo, faz uma coisa destas. E também não percebo como é que um dirigente com responsabilidades na matéria depois diz que, com a requalificação praticamente concluída, a EN 125 já é uma alternativa à Via do Infante. A sério? Quando é que esse senhor percorreu a EN 125 pela última vez? E estava acordado ou a sonhar com o tal mundo perfeito? Esperemos que esta ideia palerma seja rapidamente corrigida, à semelhança do que aconteceu com a outra «fantástica» ideia de meter os separadores centrais de cimento. Essa então foi de mestre. Tenham cautela que os «mouros» qualquer dia revoltam-se mesmo a sério e, nessa altura, os pinos até podem servir para vocês sabem muito bem o quê…

Daniel Pina

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25 opiniões sobre “Para o génio do duplo traço contínuo…

  1. Como ainda não fui para o outro lado do Algarve onde puseram os pinos e ando mais entre Tavira e VRSA, prometo aqui solenemente nunca mais me queixar dos buracos. Tudo menos pinos, valha-nos Deus!

  2. Concordo plenamente mas ha uma coisa que o Sr talvez nao reparou, para que serve aqueles passeios tao largos fora das localidades e em contra partida nao ha escapatoria para um veiculo quando outro está avariado ou em caso de acidente para os secorros

  3. Tem toda a razão Daniel
    E para mostrar ainda que tem toda a razão conto-lhe o que aconteceu na 125 em Bouliqueime. Logo a seguir a uma curva, construiram uma divisória com alguma largura e com um lancil de pedra forte e alto, a separar as duas faixas
    Ficou então uma faixa de rodagem estreita de cada lado, que quando por lá passava de carro achava demasiado estreita e interrogava-me como se sentiriam os condutores dos autocarros e camiões ao passarem ali e observava mesmo a dificuldade que tinham de progredirem em tal carreiro até porque tinham de olhar pelo espelho para efetuarem aquela travessia.
    No caso de um veiculo ali avariar ou de acidente a fila que se iria formar seria descomunal como o será agora nos traços continuoooooosssss.
    Achava também que tal obra de engenharia numa curva era perigosa.
    Comecei então, quando ali passava, a ver rastos de pneus por travagens, e claro que, depois e em dois dias seguidos vi dois carros que quase ficaram destruídos ao baterem neste brutal monumento de estupidó-engenharia que mostra tal como mostram os traços contnuooooosss da 125 a estupidez continuuuaaa de quem decide sem ter qualidades para tal.
    Felizmente aquela camelice foi retirada.
    Também no IC 1 quando se vai para Norte há retas com traço continuo e curvas sem visibilidade com traços descontínuos.
    Tanto na 125 como no IC1 se encontrarmos a circular à nossa frente um trator será uma eternidade para fazer um desses troços.
    Quem manda não tem responsabilidades e não se envergonhará pelo que faz? Não se importará de que nós publicamente lhes chamemos asnos.

    1. Tem razão mais que muita, António Gaspar. Mas eles não ouvem porque são cegos e surdos! È preciso gritar cada vez mais alto e dizer que, o rei vai nu… até que oiçam de uma vez por todas!

  4. Quando (infelizmente) tive um acidente na Patã em pleno semáforo, chega um agente da brigada que me diz. “Sra condutora vou ter que a multar, o seu carro está na faixa de rodagem”…ao que indignada respondi: “Sr agente o embate deu-se na faixa de rodagem”.Então o sr agente explicou-me que sempre que o carro circule após um embate, tem que ser retirado imediatamente da faixa de rodagem.Nesse dia estava parada no semáforo vermelho e sofri uma colisão na parte traseira do carro de tal violência que o carro deslizou quase um metro.Para que fosse feita a prova de culpa não retirei o veículo.A questão neste momento é: ” Então e agora?Para onde se retira o veículo?Para cima do passeio seremos igualmente multados por mau estacionamento….”

  5. Em zonas abertas e com boa visibilidade não se pode ultrapassar…. Nas povoações(na que eu tenho conhecimento), Odeáxere tem traço descontinuo. Quer dizer que posso ultrapassar dentro da povoação?? Ridículo!! É o que eu digo, Engenheeeros!!! Da, desculpem a expressão, da MERDA!!!

  6. … a irresponsabilidade, incompetência, falta de rigor profissional e sua respectiva punição, é mais que muita neste “canteiro à beira mar tão desleixado”, e… infelizmente, não só e necessariamente no sector de trânsito; desgraçadamente, o mal é transversal… e sem fim à vista.

  7. O seu final do texto Daniel Pina é o mal dos Algarvios, muita bravata e nada de acções concretas, é como esperar que numa manhã de nevoeiro apareça o Rei morto em Alcácer Quibir, … qualquer dia chateamo-nos a sério, … agarra-me senão vou-me a ele… o Algarve todo, mas todo, tem de se unir e boicotar as eleições ou as autarquicas ou as legislativas, senão é chover no molhado, O Estado está.se nas tintas para o Algarve.

  8. Concordo plenamente!
    Ainda andavam a fazer “aqueles disparates”, já eu criticava é só me apetecia ir com uma bulldozer destruir tudo😡😡😡😡😡😡😡
    Não são utilizadores e lixam a vida a quem é!
    Gravíssimo a dificuldade de prestar socorro naquela “maravilhosa 125”!

  9. A E.N. 125…a tal conhecida pelos acidentes…que tem estado em obras…só é conhecida e falada e REPARADA, de Faro a Sagres…a outra 125, de Faro a Vila Real de Sto. António (o lado esquecido), das reparações nem um banho leva há anos. Acho que as populações daquelas bandas não têm grande VOTO.

  10. Queixas que por sinal subscrevo, dado que diariamente estou a ser mais uma vitima da incompetência, desorganização, ausência completa de profissionalismo, rigor e brio, problema que se tornou crónico, palavras que não constam no vocabulário destes iluminados. Mas uma coisa vos garanto, o uso e abuso do tempo para fazer estas obras (ponte nova aonde morreu gente, rotunda da Fatacil, entrada ponte velha Portimão, etc. etc. etc.) é faturado, assim como todos os pinos, m2 de pintura e seguramente alguém tem todo o interesse em que as coisas funcionem desta forma porque só assim se perde no tempo o rasto dos milhões gastos em desvaneios para proveito de alguns em detrimento de todos nós. Queixamo-nos a quem ?? Vejam o exemplo da estrada para a Rocha pela rua D Carlos 1, á mais de um mês fechada, uma via essencial para o transito, sinceramente haja decência

  11. Vivo no Barlavento e está igual, ora traço continuo, ora duplo traço continuo em retas a perder de vista, e com pinos a decorar! Gostava ainda de acrescentar a situação em que ficaram os inumeros moradores dos acessos à EN 125, que diariamente fazem kms e kms a mais, para chegarem até às rotundas para inverterem o sentido de marcha, e aí sim seguirem o seu caminho. Sei que foram enviados vários abaixo-assinados à Infraestruturas de Portugal, sem resposta. Pode ser que apareça a TV e faça uma reportagem para agitar a “coisa”. É lamentável!

  12. E já agora, alguém reparou nas centenas de sinais de stop e de proibição de virar à esquerda que foram implantados a porta de cada acesso particular a terrenos e moradias ao longo da EN125?
    Grande negócio.

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