Quando as vidas humanas ficam em último lugar…


O exercício mental é simples. Vamos a conduzir numa estrada movimentada, digamos a EN 125. De repente, apercebemo-nos de um problema no carro, de falta de travões, que o volante deixa de responder, seja lá o que for. Duas alternativas se colocam. Por um lado, posso seguir calmamente em frente, na ilusão de que toda a gente se vai desviar do caminho, até conseguir controlar a viatura e sem lhe causar grandes danos materiais. Por outro lado, posso desviar o carro para a berma da estrada, para um descampado. Já sei que o carro vai sofrer danos materiais avultados e eu próprio vou ficar com alguns cortes ou hematomas. Também sei que, desse modo, não vou causar males a mais ninguém, que não vou provocar um acidente de grandes proporções, que não vou colocar em risco vidas humanas.

As opções são simples e a decisão tem que ser tomada numa questão de segundos. Na hora da verdade, é uma escolha entre pensar primeiro em mim, na minha integridade física, no rombo que vou ter na carteira com a reparação do meu carro; ou pensar no mal que poderei causar aos outros, nas vidas que poderei tomar, no sofrimento que poderei gerar nos outros, em pessoas que andam calmamente no seu dia-a-dia. Como, infelizmente, já perdi um filho, para mim nem sequer existe escolha possível, mando logo o carro para fora da estrada, contra uma árvore ou um muro. Que me importa se o carro for à vida, que eu fique com umas nódoas negras, que parta um braço ou uma perna.

Agora, transpomos o exercício mental para a realidade, para o trágico acidente ocorrido ontem numa praia da Costa da Caparica, quando o piloto de uma aeronave com problemas mecânicos decidiu aterrar no meio do areal, ao invés de amarar na água. O resultado foi, como todos sabemos, duas vidas que se perderam, um idoso e uma jovem criança. Pelas imagens, a aeronave ficou em bom estado. Surgem agora os especialistas a dizer que amarar é uma técnica difícil. Não tenho dúvidas que sim. Dizem outros especialistas que o piloto terá pensado que, ao jogar a aeronave para a água, morria ele e o tripulante e que, ao aterrar no areal, que as pessoas de certeza que se desviavam. Mesmo sendo uma praia da superconcorrida Costa da Caparica em pleno mês de agosto.

Primeiro: Acho pouco credível que uma aeronave destas, ao amarar na água, provocasse imediatamente a morte das duas pessoas que nela seguiam. Não façamos filmes. O avião não se afundava num ápice, provocando o afogamento do piloto e tripulante. Nem o impacto era assim tão grande que provocasse a morte imediata pelo simples embate na água. Perdoem-me se estiver enganado, não sou especialista na matéria, mas acredito que, tanto o piloto, como o tripulante, teriam tempo mais que suficiente para sair da aeronave antes de ela se afundar, se é que se iria afundar.

Mais dúvidas tenho, como se veio a comprovar, que todas as pessoas que estivessem na praia, perante um cenário tão inesperado, tivessem tempo para se afastar, para «fugir» de uma aeronave que, de repente, decidiu aterrar no meio de veraneantes, de famílias, de crianças e idosos. O que não tenho dúvidas é que os danos materiais seriam muitíssimo maiores para a aeronave se ela tivesse amarado, ao invés de ter aterrado no areal.

Claro que é fácil tecer comentários, fazer análises, dar opiniões, sobre algo que aconteceu ou se viu à distância, sem termos vivido essa situação na primeira pessoa. Mas eu volto ao meu exercício mental. Para mim, não havia dúvida alguma, pousava na água, fosse como fosse. Sabia que ia ficar com mazelas físicas, que ia ouvir um raspanete dos grandes do patrão ou do proprietário da aeronave, se calhar até ia parar ao olho da rua. Contudo, no final do dia, ia dormir sossegado por não ter colocado outras vidas humanas em risco.

Daniel Pina

 

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6 opiniões sobre “Quando as vidas humanas ficam em último lugar…

  1. já ouvi especialistas a dizer que eles iam morrer quase de certeza se a avioneta embatesse na água.
    eles puseram a prioridade em salvar as suas próprias vidas em primeiro lugar e a vida dos outros veio em segundo lugar.
    agora fica na consciência do piloto.

    1. Em 30 de agosto de 2015, uma aeronave igual e esta e, Port ironia do destino, praticamente no mesmo local, teve um problema semelhante. Houve uma grande diferença: o piloto decidiu amarar… não houve mortes… nenhuma!

    2. Pois cara amiga….poe te no lugar dele… do piloto… que levava um aluno de 19 anos… Enfim, acidentes acontecem… Tanto alarido para nada! E o assassino que matou três vidas na caparica… Aí ninguém falou nem se manifestou..povo de merda!! Só fala do que não tem importância…

  2. Acho difícil prever as consequências numa siruaçao destas. Se tivesse amarado também corria o risco de que houvesse vítimas mortais, uma vez que deveriam andar muitas pessoas ao banho, no areal foi o que foi, é tudo imprevisível, calculo que o piloto viveu momentos de grande angústia, como tal não gostava nada de estar na pele dele.

    1. Tenho pilotos na familia, e sei de um caso hã coisa de 2 anos aí também,na costa da caparica, onde o piloto foi amarar nas águas da praia da Cova do Vapor, e salvaram-se os dois, o avião era igual a este! O risco para os pilotos eram bastantes reduzidos, enquanto para as pessoas na praia eram de 100% fatais!!!

  3. Muito fácil tecer considerações acerca de um desastre, quando os protagonistas não somos nós.
    Primeira nota, como é possível dirigir um veículo automóvel para um descampado, se não tem controlo algum sobre ele, já que o volante deixou de responder.

    Imagine que o piloto decidia amarar, decisão que tem de ser tomada em segundos, a aeronave embatia contra duas ou três pessoas, que perdiam a vida. Logo surgiriam os mais diversos comentários, não faltando aqueles que atribuiriam ao piloto as maiores culpas. apresentando alternativas: se tivesse aterrado no arial, os banhistas sempre tinham a possibilidade de fugir.

    Quando sofremos um acidente, a maior preocupação é sair da situação, o mais rápido possível. Não se pensa em mais nada. Não temos o mesmo discernimento, nem o tempo de reacção, que possuímos para escrever um comentário, acerca de um desastre que aconteceu a terceiros.

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